Contribuição das forças de caráter para o desenvolvimento de uma autoestima saudável para Psicologia
- Juliana Capel
- 17 de nov. de 2021
- 9 min de leitura
Atualizado: 19 de nov. de 2021
Trabalho de conclusão de curso da pós-graduação em Psicologia Positiva - PUCRS
Escrito por Juliana Capel Hernandes
Orientadora: Joyce Dickel Segabinazi
A autoestima é um tema que começou a ser estudado recentemente e apesar de ser um assunto muito importante para o desenvolvimento do nosso bem-estar, há poucos estudos da Psicologia sobre. Podemos compreender a autoestima como um aspecto avaliativo: um conjunto de pensamentos e sentimentos referentes a si mesmo, podendo ser positivos ou negativos, causando impacto em como o indivíduo se enxerga e como ele se relaciona com os outros (Rosenberg, 1965).
Na Psicologia Positiva, um dos estudos mais importantes é o das forças de caráter. Segundo Niemiec (2019), as forças de caráter são características/capacidades positivas enriquecedoras, não diminuem os outros, são universais e valorizadas em todas as culturas, e estão alinhadas com diversos resultados positivos para si mesmo e para os outros. Esses estudos científicos classificaram seis virtudes: Sabedoria, Justiça, Transcendência, Humanismo, Coragem e Temperança. Dentro dessas virtudes, foram subdivididas as 24 forças de caráter. As 5 forças que mais utilizamos, que através delas conseguimos transparecer quem somos, são chamadas de forças de assinatura.
O objetivo deste trabalho é trazer uma maior compreensão sobre o que é a autoestima e quão importante ela é para a saúde mental e o bem-estar, assim como refletir de que forma a Psicologia Positiva poderia contribuir para o desenvolvimento de uma autoestima saudável, através da utilização das forças de assinatura dos indivíduos.
A escolha deste tema partiu da minha experiência pessoal ao longo da minha adolescência, onde tive muitos problemas relacionados a baixa autoestima e através da psicoterapia, pude desenvolver habilidades e trabalhar crenças disfuncionais que me impediam de ter uma autoestima saudável. Na graduação em psicologia, decidi estudar mais sobre a temática, porém não encontrei muitos conteúdos relacionados, o que me instigou a buscar mais conhecimento após formada, ou seja, aqui na pós-graduação em psicologia positiva para ajudar mais pessoas com a mesma problemática que tive.
Quando comecei meus estudos sobre a autoestima, ainda na graduação, me intrigava bastante a questão de não termos muitos conteúdos científicos a cerca desse tema. O que me levou à Psicologia Positiva, me trazendo uma perspectiva diferente sobre o ser humano, não estudando somente suas patologias, mas também o que faz feliz, o que contribui para o seu bem-estar, as características positivas da sua personalidade. Vi ali uma oportunidade de aprender mais sobre como desenvolver uma autoestima saudável utilizando o que já possuímos de positivo, promovendo maior qualidade de vida para as pessoas que buscam o meu trabalho como psicóloga.
Afinal, a forma como a pessoa se sente em relação a si mesma impacta muito na sua saúde mental. O Brasil é o quinto país do mundo com mais pessoas em depressão e de acordo com dados da OMS (2017), a quantidade de casos de depressão cresceu 18% em dez anos - com previsão de que até o ano de 2020, a doença seria a mais incapacitante do planeta. Levando em conta que o quadro de depressão tem como sinais e sintomas (DSM V, 2014) a redução da autoconfiança e da autoestima e a perda da esperança com o futuro, podemos perceber a importância do desenvolvimento de uma autoestima saudável, para proteção da saúde mental.
Dolan (2006) nos afirma que autoestima é um dos conceitos psicológicos mais utilizados atualmente, provavelmente pelo seu aspecto fundamental para o desenvolvimento do nosso bem-estar. Estudos recentes apontam indicativos da associação entre autoestima e bem-estar subjetivo – pessoas com uma autoestima saudável tendem a ser mais esperançosas com o futuro, mais entusiasmadas com a vida, promovendo emoções positivas no seu dia a dia (Du, King & Chi, 2017 citado por Niemiec, 2019).
A autoestima está presente em todos os seres humanos, independentemente de sua raça, cor, gênero etc. e se refere ao que a pessoa pensa e sente em relação a si mesma. Também contribui na forma de como encaramos os obstáculos da vida, como reagimos diante de frustrações e fracassos (Branden, 1994).
Por isso é tão importante conhecermos os aspectos que permeiam a nossa autoestima, para saber o real impacto em nossas vidas. Muito se fala nas mídias sociais sobre a autoimagem e transtornos relacionados a aparência. Mas, a autoestima é bem mais complexa do que somente nossa avaliação sobre o que vemos no espelho.
O psicólogo Walter Riso, em sua obra “Apaixone-se por si mesmo” (2012) atribuiu quatro pilares importantes para a construção da autoestima saudável. São eles:
· Autoconceito: o que você pensa de si mesmo;
· Autoimagem: a opinião que você tem sobre a sua aparência;
· Autorreforço: como você se premia e se gratifica pelo seu esforço e conquistas;
· Autoeficácia: quanta confiança você tem em si mesmo e a convicção de que consegue atingir seus objetivos.
Através desses conceitos, podemos compreender que a autoestima é uma consequência de atitudes geradas no interior da pessoa. Precisamos ter consciência dessas atitudes para que consigamos integrá-las em nossa vida e colocá-las em prática conosco e com os outros.
E onde entra a questão das nossas forças de assinatura? Os especialistas em Psicologia Positiva, Martin Seligman e Christopher Peterson, lideraram um projeto de estudo com uma equipe composta por 55 cientistas, envolvendo uma enorme revisão histórica e análise do pensamento sobre o tema do caráter em diversas áreas, tais como: a filosofia, ética das virtudes, educação moral, psicologia e teologia dos últimos 2500 anos.
O resultado desse estudo, foi uma classificação de seis virtudes valorizadas em diferentes culturas e períodos históricos. São elas: Sabedoria, Justiça, Transcendência, Humanismo, Coragem e Temperança. As virtudes representam a nossa essência como seres humanos, nossas qualidades que nos levam a desenvolver o melhor que pudermos ser através da expressão das forças de caráter na prática, no dia a dia. Como estas virtudes são difíceis de serem medidas, os pesquisadores as dividiram em 24 forças de caráter.
Na Classificação VIA, o teste desenvolvido através desse estudo sobre as forças, que nos permite mapeá-las, há uma estruturação do mais amplo para o menos amplo (Peterson & Seligman, 2004 citados por Niemiec, 2019), que nos mostra que as forças de caráter são o caminho para desenvolvermos as virtudes.
Comportamentos que temos que nos auxiliam na nossa melhoria como seres humanos e nos proporcionam sentimentos positivos em relação a nós mesmos. As forças de assinatura, nossas cinco primeiras no ranking do teste VIA, são aquelas forças de caráter mais centrais para quem a pessoa é e que melhor captam sua singularidade e essência. Elas também têm maior probabilidade de ser mais energizantes e expressas mais naturalmente que as outras forças do perfil da pessoa.
Uma das teorias dominantes na Psicologia Positiva é a teoria do bem-estar desenvolvida por Seligman (2011), em inglês tendo sua sigla: PERMA. Na qual cada letra significa um caminho independente e mensurável para a vida de florescimento - uma vida plena de bem-estar. São elas:
· Emoções positivas;
· Engajamento;
· Relacionamentos positivos;
· Sentido;
· Realização.
Seligman descreve a relação que as 24 forças têm com o florescimento dessa forma: "Na teoria do bem-estar as 24 forças sustentam todos os cinco elementos, não apenas o engajamento: empregar suas forças mais altas leva a mais emoção positiva, mais significado, mais realização e a relacionamentos melhores".
Para florescermos, precisamos ter todas as “características essenciais” e três das seis “características adicionais” demonstradas a seguir:
· Essenciais: emoções positivas, engajamento, interesse, sentido, propósito.
· Adicionais: autoestima, otimismo, resiliência, vitalidade, autodeterminação, relacionamentos positivos.
Na teoria do bem-estar, a autoestima é descrita como sentir-se muito positivo em relação a si mesmo. Alex Linley e sua equipe investigaram e encontraram evidências do porquê a utilização das forças de assinatura está associada ao bem-estar (Linley et al., 2010 citado por Niemiec, 2019).
Eles constataram que utilizar as forças de assinatura está relacionado ao progresso das metas da pessoa e à satisfação das necessidades psicológicas básicas de autonomia, afinidade e competência, ou seja, os elementos essenciais da teoria da autodeterminação (Deci & Ryan, 2000 citado por Niemiec, 2019), um dos aspectos necessários para o nosso florescimento, o que me remete bastante ao pilar descrito por Walter Riso citado anteriormente, a autoeficácia. Quando sentimos que somos competentes e conseguimos conquistar nossas metas, desenvolvemos nossa autoestima de forma positiva.
Podemos compreender que as forças de assinatura surgem naturalmente em nós e são a expressão de quem somos. Portanto, quando permitimos que nossa parte essencial seja expressa, estamos satisfazendo nossas necessidades básicas que têm a ver com fazer melhores conexões em nossos relacionamentos e realizar nossos objetivos, desejos e vontades.
O sucesso com as metas flui naturalmente com isso, ao percebermos que somos capazes, logo a autoestima tem sido outro mecanismo que vincula ali forças de caráter com a satisfação na vida (Douglass & Duffy, 2015 citado por Niemiec, 2019) sendo também uma característica necessária para o nosso florescimento.
Cada vez que colocamos em prática de forma consciente as nossas forças de assinatura, seja em prol do nosso bem-estar ou para ajudar outras pessoas, estamos nos energizando, construindo emoções positivas e contribuindo para o desenvolvimento da nossa autoestima. Fortalecendo nossos relacionamentos, nos engajando mais nas atividades que nos propomos a fazer, passamos a ver mais sentido em nossas ações.
Nos sentimos úteis, nos recompensamos e nos parabenizamos por isso, nos sentirmos mais confiantes diante de nossas capacidades, elevamos nossa avaliação de quem nós somos, até quando utilizamos nossas forças para trabalharmos a relação com a nossa aparência física: estimulando entusiasmo para a prática de atividades físicas, criatividade para buscar novas formas de nos sentirmos melhores com o nosso corpo e autocontrole para lidar com aquilo que não podemos modificar. Aceitando quem somos da forma que somos e sabendo expressar isso!
Como o trabalho do psicólogo pode auxiliar na utilização das forças e no desenvolvimento da autoestima? Por meio da psicoterapia positiva! Uma abordagem de terapia que foca na construção de emoções positivas, forças e significado na vida dos clientes para promover a felicidade.
Experimentos constataram que essa abordagem é superior a psicoterapia convencional para depressão (Rashid & Anjum, 2008; Seligman, Rashid, & Parks, 2006 citado por Niemiec, 2019). Tayyab Rashid observou que mais de 50% da psicoterapia positiva gira em torno da utilização e da prática das forças de caráter.
As sessões focam nas intervenções gerais de forças de caráter, forças específicas (por exemplo, uma sessão sobre perdão; uma sessão sobre gratidão), e promoção de um tema central da psicologia positiva, seja engajamento, relacionamentos mais positivos etc. contribuindo assim para o desenvolvimento da sua autoestima através da prática consciente de suas forças de caráter.
Com o avanço da tecnologia, aumento do consumo de informações através dos meios digitais de comunicação e das redes sociais, as pessoas estão mais conectadas e compartilhando mais de suas vidas umas com as outras. A identificação, demonstração de vulnerabilidades e problemáticas envolvendo a autoestima serviram como um meio de propagar mais sobre o assunto. Hoje se fala muito mais no termo autoestima do que há alguns anos. Também percebemos o impacto maior nas músicas e canais de entretenimento.
Com a pandemia da Covid-19, nossos hábitos mudaram. Precisamos ficar de quarentena, sem nossa rotina e essa mudança nos deu espaço para desacelerarmos e olharmos mais para nós mesmos. Na mídia, durante esse período o k-pop (estilo de música pop coreana) explodiu e em especial o grupo BTS, formado por 7 rapazes sul-coreanos, com as suas músicas relacionadas ao amor-próprio e o desenvolvimento de autoestima saudável, contribuindo bastante para a discussão sobre essa temática.
O impacto social foi tão grande, que o grupo que havia discursado na Assembleia Geral das Nações Unidas em 2018, foi novamente convidado para o evento em setembro de 2021. A seguir um trecho do discurso realizado pelo líder do grupo, que chamou bastante atenção pela sua menção a importância de desenvolvermos uma autoestima saudável:
“Depois de lançar a série de álbuns 'Love Yourself' e a campanha 'Love Myself' (em parceria com a UNICEF, baseada na crença de que o amor verdadeiro começa primeiro com o amor-próprio), eu comecei a escutar histórias impressionantes de nossos fãs pelo mundo, de como nossa mensagem os ajudou a superarem as dificuldades da vida e de como eles passaram a se amar.
Então, vamos todos dar mais um passo. Aprendemos a nos amar. Agora, eu insisto que falem por si mesmos. Eu gostaria de perguntar a todos vocês: Quais são seus nomes? O que anima vocês e o que faz seus corações baterem? Me digam suas histórias, eu quero ouvir suas vozes e ouvir suas convicções. Não importa quem você seja, de onde você venha, sua cor de pele, sua identidade de gênero, apenas fale! Encontre seu nome e sua voz, falando por si próprio.”
Podemos perceber o quanto o conteúdo que consumimos, nesse caso a música, contribui para pensarmos sobre nós mesmos, nossos gostos, preferências e até sobre a avaliação que fazemos de nós mesmos. Esse grupo chamou a atenção justamente por trazer essa pauta do amor-próprio e da autoestima para milhares de jovens, seu público-alvo e o desse trabalho também.
Jovens que sabem quem são, conhecem suas capacidades, utilizam suas forças de caráter para o seu desenvolvimento serão bem mais sucedidos do que aqueles que tem um conceito negativo sobre si mesmos. Não falo somente sobre carreira profissional, mas de todos os aspectos citados anteriormente na teoria do bem-estar.
Que possamos propagar nosso conhecimento para que mais jovens se despertem para o autoconhecimento de suas características positivas, tenham mais bem-estar em suas vidas e consigam impactar outras pessoas para que mudemos essa ideia pré-concebida de que precisamos ser autocríticos em excesso para sermos produtivos e realizados. Nada em excesso faz bem para a nossa saúde mental, até o nosso próprio julgamento.
Com pequenos passos, como esse trabalho, podemos impactar muitas vidas.
Meu primeiro passo foi dado.
Referências
American Psychiatric Association. Manual diagnóstico e estatístico de transtornos mentais: DSM-5. 5.ed. Porto Alegre: Artmed, 2014.
Branden, N. (1994). Auto-Estima: como aprender a gostar de si mesmo. São Paulo: Editora Saraiva.
Branden, N. (1995). Auto-Estima e os seus seis pilares. São Paulo: Editora Saraiva.
Dolan, S. (2006). Estresse, auto-estima, saúde e trabalho. Rio de janeiro: Qualitmark.
Du H, King RB, Chi P (2017) Self-esteem and subjective well-being revisited: The roles of personal, relational, and collective self-esteem. PLoS ONE 12(8): e0183958. <https://doi.org/10.1371/journal.pone.0183958>
Intervenções com forças de caráter I Ryan M. Niemiec ; tradução Gilmara Ebers ; revisão técnica Helder Karnei. - 1. ed. - São Paulo: Hogrefe. 2019.
Riso, Walter, 1951 – Apaixone-se por si mesmo: o valor imprescindível da autoestima / Walter Riso ;
tradução Sandra Martha Dolinsky. – São Paulo : Planeta, 2012.
Rosenberg, M., Schooler, C., Shoenbach C., & Rosenberg, F. (1995). Global self-esteem and specific self-esteem: different concepts, different outcomes. American Sociological Review, 60, 141-156
Veja o inspirador discurso do BTS na Assembleia Geral das Nações Unidas. Vagalume, 2018. Disponível em: <https://www.vagalume.com.br/news/2018/09/25/discurso-bts-nacoes-unidas.html>


Comentários